
Biografia
Thatha Matarazzo vive e trabalha em São Paulo. Sua trajetória artística tem início nos anos 1990, quando a pintura se estabelece como prática de expressão de conteúdos que não cabem nas palavras, nem faladas nem escritas. Desde então, seu trabalho se desenvolve como um fazer contínuo, no qual gesto, matéria e consciência se articulam.
Sua produção abrange pintura, desenhos, esculturas em cimento celular e esculturas de corpo. As diferentes linguagens não operam como campos separados, mas como desdobramentos de uma mesma prática: a construção de presença por meio do fazer.
Desde 2003, utiliza tinta acrílica à base de água. A escolha do material está ligada à água como elemento comum ao corpo humano e aos sistemas naturais do planeta. A fluidez da tinta, o tempo de secagem e a construção das camadas condicionam o gesto e orientam o processo. A pintura se constrói como relação direta entre corpo, matéria e atenção.
A vivência em fazendas de café, acompanhando todas as etapas do processo — da semeadura à colheita, da lavagem à seleção e à torra dos grãos — constitui um eixo fundamental de sua formação perceptiva. O café integra sua prática como observação concreta de ciclos, transformação e tempo.
Outro campo decisivo é o litoral norte paulista, onde manteve contato contínuo com o mar ao longo de 18 anos. A convivência com as marés, as fases da lua e as mudanças climáticas consolidou uma escuta atenta aos ritmos naturais, ao movimento e à instabilidade, elementos que atravessam sua obra de forma estrutural.
Paralelamente à prática de ateliê, Thatha desenvolve pesquisa continuada em arte antiga, com especial atenção ao Antigo Egito. Interessa-lhe a concepção do coração como centro da inteligência e da memória, e a ideia de que um coração leve — resultado de uma vida vivida com presença e consciência — é condição de continuidade. Essa compreensão orienta sua prática como princípio ético e perceptivo.
Nesse contexto, surgem as esculturas de corpo — os adornos — desenvolvidas a partir da união dos três reinos: vegetal, mineral e animal. Construídas principalmente com pedras, essas peças são pensadas para o corpo e ativadas pelo uso, em diálogo com a tradição egípcia, na qual objetos eram concebidos com intenções precisas de proteção, cura e poder.
A obra de Thatha Matarazzo se afirma como prática diária de conexão com a consciência, na qual o fazer mantém a atenção desperta e o gesto constrói presença.
Ancestralidade
Na busca pelas próprias origens, Thatha Matarazzo reconhece a família sanguínea como parte constitutiva de sua formação. Nascida no Brasil, em uma família de origem italiana ligada à história cultural e industrial do país, é tataraneta de Francesco Matarazzo e sobrinha-neta de Ciccillo Matarazzo, fundador do Museu de Arte Moderna de São Paulo e da Bienal Internacional de Arte.
A ancestralidade, em seu trabalho, não se manifesta como herança celebrada ou narrativa histórica, mas como campo de consciência. A história familiar é reconhecida como solo — algo que sustenta, mas não determina.
O antigo hospital construído por sua família abriga hoje a Cidade Matarazzo. A relação com esse território se dá pela presença e pela prática, não pela representação.
Em 2014, ao participar da intervenção artística que deu origem à atual Cidade Matarazzo, a artista chegou ao antigo hospital e dirigiu-se ao jardim. Ao tocar uma planta, buscou compreender o sentido de sua presença naquele lugar. A frase que emergiu naquele gesto sintetiza sua compreensão da arte como prática viva:
“O hospital cura o corpo. A arte cura a alma.”
O gesto ocorreu no espaço hoje chamado Jardim das Oliveiras — nome que também evoca a linhagem dos Oliveira —, estabelecendo uma continuidade entre origem, corpo e ação.
Para Thatha Matarazzo, a ancestralidade pulsa como prática de consciência. Não é passado a ser revivido, mas presença a ser sustentada no fazer. Sua arte não se coloca no campo da experimentação, mas como prática contínua de conexão com o eu central, onde origem, matéria e percepção se alinham no tempo presente.

Declaração da Artista
“A obra, para mim, é viva. Possui energia e intenção próprias e carrega uma dimensão de surpresa que se revela com o tempo. Pincéis e espátulas são extensões do meu corpo; é através deles que a pintura se constrói sobre a tela, em conexão direta com meu universo interior.
O fazer é minha prática diária. É por meio dele que a expressão da minha consciência se torna mais clara e ativa. No ato de pintar, estabeleço contato com meu eixo central, um estado de presença no qual gesto, matéria e percepção se alinham.
Minhas obras orbitam investigações sobre as origens, as sensações, o pensamento e as questões existenciais. São atravessadas por uma atenção constante ao que não é visível, buscando estabelecer conexões sutis entre o mundo material e dimensões mais profundas da experiência humana.” TM
